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Já se disse muita coisa sobre a Nanny. Já se falou da exposição, do ‘cantinho’, dos direitos, etc. A mim o que me ficou depois daquilo tudo foi ‘bolas, é mesmo difícil ser mãe em Portugal’.
E vocês podem dizer-me: ‘Ai mas os nossos pais tinham uma vida dez vezes mais complicada, e não se ensaiavam nada para usar o chinelo nem tinham medo da sua autoridade’.
Enfim. Primeiro depende dos pais, obviamente. E das crianças. A minha mãe o mais que fazia era levantar-me a sobrancelha, e estava o assunto resolvido, enquanto o meu irmão dava espectáculos de luz e som dignos do Circo Chen. Portanto, ‘dantes’ também não era o reino da chamada ‘boa educação’. Aliás, basta ver a quantidade de adultos incrivelmente mais parvos e malcriados do que as crianças para perceber que a geração dos nossos pais também não se saiu assim tão bem.
Depois, também não estou tão certa do real valor do chinelo nem da autoridade pura e dura.
Depois, tinham vidas mais complicadas mas a comunidade era geralmente mais presente: havia as avós, as tias, as vizinhas, as crianças andavam em bando, era tudo mais ‘partilhado’ (esta palavra hoje tão na moda mas tão pouco praticada).
E depois, se formos honestas, a maioria dos nossos pais e avós não estava interessada em ter aquelas criaturas (que geralmente eram muitas) a atazanar-lhes o juízo e a casa durante mais tempo do que o estritamente necessário, portanto eles que aprendessem depressinha a vestir-se a comer sozinhos e a tratarem da sua vidinha que uma mãe não era uma criada.
Hoje as mulheres têm filhos (enfim, quem tem) mas quem é que as ajuda? Ser mãe é um trabalho, muitas vezes, incrivelmente solitário. As professoras têm mais 35 alunos e ‘programa’ para dar, as avós ou estão longe ou desajudam, os pais idem (estão longe ou desajudam). Claro que há muitos pais presentes e esforçados, mas estou-me a lembrar de alguns mais infantis do que as crianças, outros que bazaram para outra família assim que a criança começou a dar problemas, e muitos outros que, mesmo sendo ‘presentes’, qualquer coisa que façam é visto como um favor em vez de uma tarefa banal.
As mães trabalham até tarde, estão cansadas, estão carentes, estão a braços com culpas variadas (de não estarem lá o tempo todo, de se terem separado do pai, de se terem exaltado, de tudo e mais alguma coisa), precisam elas próprias de colo, e quem é a única pessoa que está ali para lhes dar colo? Os filhos são para manter pequeninos, para se poderem mimar, para poderem adormecer connosco na cama, para lhes podermos atar os sapatos até aos 14 anos, para podermos carregar ao colo pela casa toda, porque as mães também precisam de colo e não o têm. Hoje, há quem tenha filhos para ser amado.
Isto pode ser um choradinho que está longe da verdade. Posso estar a ver tudo negro (deve ser porque o dia deu em chuvoso). Mas o que fiquei a pensar depois do tsunami que tudo isto deu foi que, neste caso, era a mãe que precisava de ajuda, não a filha. Mas quem ajuda as mães neste país onde se alardeia que é preciso aumentar a natalidade mas depois se paga à esmagadora maioria da população o salário mínimo, ou menos? Onde tantos homens foram educados pelas suas próprias mães para serem infantis e sem serventia (como diria a minha avó)? Qual é a mãe que pode educar um filho com calma, cabeça e sensatez quando não se sente ela própria amada, apoiada, valorizada?
Ser mãe nunca foi fácil: mas agora é uma profissão de risco. Era bom que toda esta discussão servisse, ao menos, para tornar a vida das mães (e pais) mais suave. E para que não fosse um drama tão grande ter de dizer ‘não’ a uma criança (e 'sim', na maioria das vezes).

Fui acordada dos meus sonhos pré-férias pela fúria de uma amiga. O que é que se passa? Ela estava mesmo exaltada: “Passa-se esta mania agora de que quem é solteiro e não tem filhos não precisa de programar a vida e fica para trás em tudo, pá! PKP!”
Fiquei a pensar que ela tinha razão: actualmente, parece que ter filhos é a única razão de viver.
Falei com outras amigas que não são mães e todas confirmaram: se não tens filhos, ninguém respeita o teu tempo. És uma egoísta. Não podes sair mais cedo nunca (para quê?), não podes marcar férias em Agosto (porque quem tem miúdos precisa mais), não há nenhuma razão para não trabalhares até mais tarde ou ao fim de semana (afinal, não tens ninguém em casa a quem precises de ir aquecer douraditos ou dar banho ou obrigar a fazer os TPCs) e basicamente, não tens vida que valha a pena ter em conta.
Mais do que isso, diz a Leonor, não tens família! “Porque em Portugal, ‘família’ são só filhos. E se não tens filhos, qual é o teu papel na sociedade? És uma inútil, um peso, uma invisibilidade.”
Claro que quem tem filhos queixa-se do contrário: de ser preterida em cargos de trabalho, e de muitas vezes os chefes não serem nada sensíveis à necessidade de levar os miúdos ao médico, ir à festa da escola ou sair mais cedo porque eles deram uma queda manhosa e é preciso levá-los ao hospital (e já se sabe que a quantidade de pais homens que assume estas tarefas continua mínima).
Mas desses males fala-se muito. É o famoso ‘conciliar a maternidade com a profissão’. Fala-se pouco é de quem não tem ‘nada’ para ‘conciliar’ e portanto, acha o mundo, deve estar disponível para ser explorada até à 5ª casa.
Por acaso vou ser sincera: no sítio onde trabalho isso nunca me aconteceu. Nunca ninguém pôs em causa que eu quisesse férias em Agosto ou que precisasse de sair mais cedo quando fosse mesmo mesmo preciso. Mas vejo isso acontecer diariamente, com outras mulheres e de várias maneiras: é aquele discurso do ‘não tens filhos, sabes lá o que é estar cansada’ ou ‘Não tens filhos, podes ir ao ginásio à vontade, que sorte’. As pessoas querem tudo nesta vida. Quer dizer, não tenho a alegria de ter filhos, e além disso, também não devia ter a alegria de ir ao ginásio ou ao cinema ou onde me apetecesse. Ou lá por não ter filhos não tenho também o direito de estar cansada sem entrar numa competição infantilóide de ‘eu estou mais cansada do que tu’. Como se não houvesse infinitas maneiras de estar cansada, de amar alguém, de ter uma vida.
Depois há aquela tirada que está agora muito na moda: ‘Até ter filhos, eu não sabia o que era amar’. Bolas, minha senhora, que vida triste e vazia que a senhora teve até ter filhos… A Humanidade em geral e as mulheres em particular estavam bem arranjadas se só soubessem o que era o verdadeiro amor depois de terem filhos…
Escusado será dizer que mesmo para as nossas mães quem não tem filhos continuará eternamente com 5 anos. Enfim, quem tem filhos também, mas é ligeiramente mais respeitado, principalmente os homens. Não é que sejam mais respeitados intrínsecamente, mas como têm uma 'arma' que nós nunca teremos - as crianças - também têm infinitamente mais poder sobre avós e sogros.
Isto já para não falar em casos mais graves de heranças e desavenças: não tens filhos? Então para que é que precisas de dinheiro? Para que é que precisas de uma casa decente? Podes muito bem viver num moquifo. Para que é que precisas de uma parte igual à da tua irmã, afinal ela tem crianças e tu não.
Então e se me apetecer estoirar o meu dinheiro todo em sucessivas voltas ao mundo? Se quiser abrir uma escola no Zimbabué, não posso? Se quiser passar o resto dos meus dias no Reids enfrascada em champanhe, não posso? Além disso, como não tenho filhos também é normal que fique mais desamparada na velhice e precise de mais apoio, ou não?
Enfim. Como dizia a minha avó, cada um tem a sua cruz. Mas já ia sendo tempo de respeitarmos as pessoas pelo que elas são, e não por aquilo que têm. Incluindo os filhos.

Há um episódio no Adrian Mole em que ele vai à biblioteca e a bibliotecária sugere-lhe ‘Orgulho e Preconceito’. Comentário do leitor: “Gostei muito, embora ache que da próxima vez a autora deva escrever qualquer coisa um bocado mais moderna”.
Não era uma graça – quem se lembra do Adrian Mole sabe que ele não fazia graças – mas tem precisamente a graça contrária ao comentário: um rapaz dos anos 80 acha plausível que Jane Austen seja do tempo dele. E no entanto, faz hoje 200 anos que morreu.
O segredo de Jane é que ela permanece até hoje nossa contemporânea e nossa cúmplice. Ok, as mulheres agora já não têm de casar para assegurar o seu sustento ou o da família. Mas o humor dela é o nosso, a escrita realista é a nossa, até as famílias (mais coisa menos coisa) são as nossas. Toda a gente teve uma irmã chata, uma mãe faladora e vagamente histérica, um pai sacrificado, amigos leais, conhecidos snobes, patrões prepotentes. (Pronto, nem toda a gente teve um Mr. Darcy. Mas não se pode ter tudo nesta vida).
Não era uma senhora: tinha um humor que não perdoava. Numa das cartas à irmã, disse uma vez: ‘Parabéns: temos um sobrinho novo. Deus queira que, se alguma vez for enforcado, já sejamos suficientemente velhas para não nos preocuparmos com isso.” Noutra informava-a: “Os teus limoeiros não estão mortos. Mas também não estão vivos.” Ou: “Não é desagradável ser chaperone, podemos beber todo o vinho que quisermos.”
Durante anos, ri-me tanto com ela que até me esqueci do principal: ela viveu num mundo em que não era fácil ser mulher. Ela própria dizia que uma mulher solteira tinha uma horrível predisposição para ser pobre. Viu as sobrinhas e amigas morrerem de parto e há quem diga que foi por isso que ficou solteira. Também há quem diga que simplesmente não encontrou um Mr Darcy e teve de o inventar. Isso não interessa nada. Se pensarmos que morreu há 200 anos e que Mr Darcy usava peruca, talvez se respeite mais a enormidade de uma mulher que escreveu livros que ainda hoje são lidos, relidos, e transformados em séries e filmes uma e outra vez.
O mundo dela não era o das comédias de família ou dos romances que podiam dar para o torto (e nessa altura isso queria dizer que toda a nossa vida dava para o torto), ou sequer das mulheres demasiado inteligentes para a época em que viviam (e até que ponto, agora que falamos nisso, as mulheres ainda hoje se identificam com isto?). O mundo dela era o de uma ironia amarga mas muito britânica sobre o destino feminino, trancado num espartilho claustrofóbico de regras e convenções.
Aos seus leitores ensinou sobretudo a arte da atenção. Se essa atençção incluía a muito orgulhosa e preconceituosa arte de se rir dos outros - incluía, mas também a arte muito mais difícil de se rir de si própria. Ensinou-me a importância de observar o mundo principalmente os arrogantes (para nos defendermos deles e não sermos iguais), e que o importante não é aquilo que os outros pensam de nós, mas aquilo que pensamos de nós próprios.
Gosto de a imaginar a escrever na sala de família, entre um assado e uma cama por fazer, entre dúzias de sobrinhos a correr de um lado para o outro e uma mãe que nunca a compreenderia a mandar bitaites.
Gosto porque acho que isso a aproxima de mim, mas ao mesmo tempo dói-me pensar que morreu de uma doença então desconhecida, sobre duas cadeiras juntas (porque a mãe tinha de ficar com a única cama da casa).
Deu-nos muito mais do que histórias de amor: mostrou-nos como se pode sobreviver com as escolhas que temos. E como fazê-las da melhor maneira possível.

Estamos num mundo mesmo estranho. Às vezes, como dizia a minha avó, começo a pensar onde é que isto vai parar. Depois paro de pensar porque não me pagam para pensar e porque não gosto do sítio onde vou parar mesmo nos meus pensares.
Bem: então: ando a receber presses, mailes, anúncios e convocações dirigidos a ‘imprensa’ e, notem bem, ‘influenciadores’.
Ao princípio, fiquei a olhar para aquilo como boi para palácio. ‘Influenciador’? Que raio é um influenciador? Dantes (tipo há 15 dias), imaginem, eu que era dona ou ‘propagandista’ de uma marca de, sei lá, de sapatos. Ou imaginem que escrevi um livro fantástico e acho que o mundo inteiro devia comprá-lo e lê-lo. Então mando a notícia do meu livro – ou dos meus sapatos - aos amigos, aos conhecidos, aos jornalistas, e aos ‘influenciadores’.
Dantes, mandava-se o mail aos jornalistas e depois, sei lá, aos ‘opinion makers’. Agora deixou de haver ‘opinion makers’. Agora há ‘influenciadores’. A diferença entre um ‘opinion maker’ e um influenciador é que os primeiros levam as pessoas a pensar, os segundos levam as pessoas a comprar. Ou a achar que deviam comprar. Ou a ficarem deprimidíssimas porque não podem comprar.
Claro que toda a gente faz isso. Todos nós somos, de uma maneira ou de outra, em maior ou menor grau, ‘influenciadores’: ‘Ai olha comprei uns sapatos tão confortáveis, vi este vestido tão giro, pus este creme tão bom’.
Publicidade também sempre existiu e não é isso que me incomoda. Ser ‘influenciador’ é ser publicitário encapotadamente, a fingir que estamos a ser muito honestos, a fingir que nos identificamos imenso com aquela marca, a fingir que não temos nada a ver com aquilo. Agora há gente que me ‘influencia’ (fico a pensar que influenza em inglês é uma doença) para eu comprar. Que entra na minha cabeça e que lá fica a convencer o Tico a comprar sapatos enquanto o Teco ressona. Mas isso não conta como publicidade. É apenas uma ‘influência’…
Se entrarem mais a fundo na ‘indústria’ dos influenciadores, sabemos que há vips que compram ‘pacotes’ de seguidores, likes e comentários, para aumentar o seu peso nas redes sociais. Isto já se tornou tão flagrante que o Instagram já começou a dar caça a esse tipo de falcatruas, e ainda há pouco tempo o Justin Bieber e a Kim Kardashian perderam de um momento para o outro milhares de ‘seguidores’ falsos.
Portanto, até que ponto esta coisa dos ‘influenciadores’ não começa a falsear todo o nosso mundo?
Comecei a pensar que isto talvez fosse dor de corno. Que aquilo que eu sempre quis ser na vida foi ser influenciadora. Eu a levantar um sapato, e toda a gente a ir comprar o sapato. Eu a levantar um creme, e toda a gente a ir comprar o creme. Deve dar uma sensação de poder brutal. E é de facto um poder brutal. A pergunta é, por que motivo iriam vocês a correr comprar um sapato porque eu mandei? Por que motivo vão comprar alguma coisa só porque outra pessoa que vocês se calhar nem conhecem se pôs a dizer bem daquilo? O meu gosto pode ser diferente do vosso. Os meus calos diferentes dos vossos. Os meus motivos de certeza que diferentes dos vossos. Vocês não precisam de mais uns sapatos. E se precisassem, por que raio iriam querer uns sapatos iguais aos meus? Além do mais a ideia irrita-me um bocado: uns são influenciadores, os outros são uns totós de uns influenciados…
Enfim: vou ali comprar sapatos, mas agora fiquei a pensar – quem é que está a comprar sapatos por mim?
Depois penso que já é demasiada metafísica. Que são só sapatos. Que sou só eu.
Ou talvez não.
Raio de mundo onde já nem comprar sapatos é simples.

Um dia destes, vou deixar Lisboa.
Não porque não goste, mas porque me obrigam. Lisboa tornou-se um sítio onde as pessoas não são bem vindas ( só os chineses com dinheiro, mas esses não contam). Lisboa está linda, arranjadinha, ai que belos passeios para ir com a família, mas qual família? Onde estão os lugares para estacionar os carros? Já não vivemos no século XIX: já não trabalhamos ao lado da nossa casa. É muito lindo dizer 'vão trabalhar de transportes', mas eu para chegar ao sítio onde trabalho preciso de apanhar quatro transportes. É lindo, não é? À chegada a casa, demoro uma hora às voltas. Uma hora roubada à família, à minha vida, ao raio que o parta. Além disso, eu tenho direito a ter carro e tenho direito a ter onde estacioná-lo. Tão simples como isso. Quase que aposto que os senhores vereadores têm todos o seu lugarzinho de garagem.
Mas não. Nesta Lisboa tão verde, tão bonita, tão fantástica, os lisboetas deixaram de poder viver. E o surrealismo não se fica por aí.
Depois de quase uma semana fora, vou hoje à procura do carro, e nada. Estranhei: então o carro estava quase em frente à porta de casa. Depois comecei a entrar em pânico. Acabei por descobrir: tinha sido rebocado.
Lá vou de escantilhão ao parque de Entre Campos.
E rebocaram o carro porquê: porque está estacionado na sua rua.
Desculpe? Atão: a sua rua está dividida ao meio, e a senhora só tem dístico até meio.
Desculpe? Pois, do meio para cima pode, do meio para baixo já não pode.
Vocês só podem estar a gozar comigo.
Não, é assim. E passe para cá 150 euros.
Guarda do parque: - Ninguém a avisou de que tinha direito a dois dísticos? Isso foi azelhice deles. Queixe-se. E enquanto não se queixa, vá lá a abaixo à câmara e peça já o segundo.
Mais uma hora à espera na câmara. Menina da Emel: - Pois, só tem um dístico. Devia ter dois. Mas nós aqui também não podemos informar de tudo.
Ah não? Então quem é que pode? é Deus? Catarina, filha: ouve-me: sou o teu Pai do Céu a informar-te que precisas de rezar mais Avé Marias pela conversão da Rússia e de te arrepender dos teus pecados e já agora, precisas de dois dísticos para estacionar na tua rua, que está dividida em dois como a aldeia do Asteríx e como Olivença.
A sério. Internem-nos.
O problema nem é que a rua esteja dividida ao meio. Dividam lá as ruas por onde quiserem. Uma amiga minha até tem uma rua onde as casas de um lado pertencem a uma freguesia e do outro a outra. O problema é que não avisam as pessoas na altura em que pedem o dístico. Alguém no seu juízo perfeito anda na sua rua a ver se todos os parquímetros têm um número igual? Só se tiver sérias perturbações mentais...
Parece que não tem uma coisa a ver com a outra, mas a verdade é que me sinto cada vez mais insegura numa cidade que é a minha desde que nasci. Lisboa está cada vez mais bonita - e cada vez mais vazia. Parabéns: estão a conseguir expulsar os lisboetas. E pouco a pouco, vamos transformar-nos em Veneza - uma cidade saqueada, de onde todos fugiram excepto os americanos gordos sentados de calções e perna aberta nos salões forrados a veludo vermelho.

Parece que estamos todos unidos na mesma 'fé' mas não é bem assim. Podemos ser:
- Os Fãs – São os optimistas que acham que vamos ganhar ao macaco, que a moralidade vai sobreviver, que o Bem vai ganhar ao Mal, que os senhores da Eurovisão reconhecem um verdadeiro artista quando o vêem, que toda a gente neste mundo está tão apaixonada como nós e que o Mundo vai ver a Luz mesmo os cidadãos do Mundo que não são fãs do Papa nem de Fátima nem do Benfica (afinal há várias maneiras de ver a Luz) e até os italianos.
- Os Não-Fãs – Pronto, não gostam, sei lá, preferem o Quim Barreiros ou o Toni Carreira ou a Shakira ou a Celine Dion ou assim alguém com uma voz mais potente. Acham que cantar bem envolve uma capacidade vocal capaz de carregar a cantiga daqui até à outra margem, porque cantar como o Salvador com franqueza qualquer pessoa canta. Acham que o Zeca Afonso também não era grande cantor, nem o Sérgio Godinho nem o Chico Buarque e por aí fora. Acham que ele tem ar de desgraçadinho meio atrasadinho, que alguém podia ter-lhe dado um banhinho e lavado o cabelinho e penteado e comprado roupinha, e que aquilo não é uma canção para se levar ao Festival, que é uma coisa que tem cantigas modernas, com gente que sabe cantar e coreografias a sério e assim uma coisa bem amanhada e profissional (se calhar não acham nada disto mas isto irrita-me tanto que me torna uma pessoa bastante intolerante, mas estou no meu blog posso ser intolerante à vontade). Para estes não há sinfonias para violinos, só trombones. De qualquer maneira, conseguem dizer coisas bastante civilizadas como ‘não gosto mas espero que ganhe’.
- Os 'Haters' – São diferentes dos não-fãs, que são educadinhos. Os 'Haters' são uma classe totalmente diferente. Em Português será odiadores, que é uma palavra estranha, mas de facto são ressabiados e perturbados que aproveitam todas as unanimidades do ‘Bem’ (como diriam os brasileiros) para descarregar a sua bílis e o seu ódio à Humanidade e todos os seus traumas da infância. São uma tribo bastante perigosa de gente que não se sabe bem como é que não está em tratamento psiquiátrico (se calhar está mas não está a resultar).
- Os Indiferentes – Têm a mania de que não pertencem à manada e ainda não perceberam que pertencem à manada dos que não pertencem à manada, que é outra manada. São aqueles que dizem coisas como ‘Desculpem lá mas não faço a mais pálida ideia de quem é o tal Salvador’. Claro que por esta altura do campeonato os Fãs já os obrigaram a ouvir e já lhes enfiaram a cabeça no forno – desculpem lá, no You Tube. Eles protestam que não vão perder 3 minutos da sua Vida & Carreira para ouvir um gajo do festival, que já não veem desde que o Fernando Tordo tinha 20 anos. Depois ouvem e a) gostam mas não vão dar o braço a torcer ou b) Continuam sem perceber que raio de coisa tão especial é que tem o Desgraçadinho para que o País perca a cabeça desta maneira.
- Os Que Estão Fora – Foram a Fátima a pé. Estão à espera do Papa. Não querem saber de futilidades como o Festival e de certeza que não estão a ler isto.
- Os Intelectuais – Nunca ouviram o rapaz nem sabem quem é, mas depois vão ouvir e percebem que ele até fez umas coisas fantásticas antes do Festival e então postam o Salvador a cantar jazz. Não é o Festival. Eles não querem saber do Festival. Isto é bastante bom. Quem diria.
- Os Transtornados – Estes não são Fãs: não são Apaixonados: são Devotos. Postam tudo, desde o coro de crianças espanholas a cantar a nossa cantiga até ao dueto entre Salvador e autoclismo numa casa de banho manhosa (de facto é entre Salvador e ventilador, mas autoclismo tem mais graça) passando pela versão em Flamenco, o concerto do Seixal e todas as outras a que conseguem deitar a mão. Os amigos mal podem esperar que passe o raio do Festival e que eles voltem todos a ser pessoas normais outra vez e postem fotos de gatinhos e de bebés outra vez.


Isto de uma pessoa ser pública deve ter chatices. Quer dizer, deve ter poucas, a julgar pela quantidade de gente que quer ser, como dizem os miúdos, ‘famosa’. Mas deve ter chatices. Uma delas tem a ver com aquelas alturas da vida em que tudo corre mal.
Às vezes penso nisso. Imaginem que tenho um blog onde conto tudo. A hora a que me deito e que me levanto, as roupinhas dos meus filhos e do meu marido, o que como ao pequeno-almoço o que visto, o que penso. A minha vida está ali. Agora imaginemos que a minha vida, como não é raro acontecer na maioria das vidas, começa a dar para o torto. Eu:
As pessoas dantes não tinham estas angústias a juntar às angústias da vida. Dantes tudo se resumia a contar ou não contar à mãe e aos filhos, e quando. Agora está o mundo inteiro no lugar dos filhos, numa proximidade surreal que nos afasta do que é verdadeiramente importante.
Partilhamos as nossas desgraças com os nossos seguidores? Com os nossos 4890 amigos no Facebook? Claro que toda a gente sabe que ‘aquilo’, a net, não é a ‘verdadeira’ realidade. Mesmo assim, deve ser estranho.
Lembrei-me disto a propósito da quantidade de divórcios que nos caiu em cima nos últimos tempos. Todos os dias é o fim de mais um casal. Já nem falo da Angelina e do Brad. Pronto, eu falo da Angelina e do Brad, só para dizer que nem eles escaparam à maldição do casamento. Vocês já repararam na quantidade de pessoas – públicas e absolutamente anónimas – que estão juntas, sei lá, onze anos, depois finalmente decidem casar, e seis meses depois divorciam-se? Nunca percebi se era por causa da tensão de estar casado ou se nos tais onze anos já tinham gasto a emoção toda do casamento e depois só sobrou aquela chatice do ‘olha que seca, estamos casados, e agora fazemos o quê?’.
Então a gente olhava para eles, coitados, a que até chamávamos Brangelina que soava a um tipo de couve mas era sinónimo de casal feliz, e agora é sinónimo de ‘ó raios, como é que nós havemos de ser felizes se nem eles’.
Vocês também já devem ter reparado que há quase sempre crianças na equação. Não necessariamente 6. Às vezes – na maioria das vezes – basta uma. Basta um bebé a berrar a meio da noite. Geralmente, quem aguenta o embate do primeiro bebé aguenta tudo. Os nossos avós aguentavam porque, a) tinham ajuda, b) divorciar-se era infinitamente mais complicado e c) as mulheres tinham nascido para sofrer. Agora já não é assim.
Também nunca percebi aquela coisa dos casais que estão juntos onze anos, compram uma casa juntos, têm um cão juntos, têm dois filhos juntos, compram um serviço da Vista Alegre juntos, mas o casamento, o casamento é que é verdadeiramente importante! Para aquelas almas, o casamento une mais duas pessoas do que terem feito dois filhos juntos.
Depois casam-se e dois meses depois separam-se.
Se não é fácil ser casal anónimo, ainda mas difícil deve ser quando se é casal público.
Um casal está em stresse constante. Se a amizade exigisse tantos compromissos, rituais, e pressupostos, também haveria reflexões angustiadas sobre o que é uma amizade feliz. Mas não. Alguma vez ouviram algum inquérito a amigos de longa data sobre o segredo da sua longa amizade? Nunca. Já ouviram alguma amiga fazer uma cena a outra a dizer ‘Ana Rita a nossa amizade acaba aqui, que me traíste com a Marta Filipa!’ para dias depois haver uma cena de reconciliação (enfim, depois dos 14 anos?) Não. E no entanto, perguntamos muitas vezes qual é o ‘segredo’ de um amor feliz.
‘Não vale a pena perguntar isso’, disse-me alguém. ‘Agora toda a gente se está a divorciar.’ Parece, mas não é verdade (embora não seja verdade por uma unha negra).
Conheço vários casamentos felizes.
Ao contrário do que se diz, um casamento longo não é necessariamente um casamento feliz (rima interna. Não façam isto em casa). Conheço imensos casais que estão juntos há mais tempo do que eu estou viva e que só continuam juntos porque já estão juntos há mais tempo do que eu estou viva e mudar de vida dá muito trabalho.
Também conheço imensos casais que só duraram dois anos, mas que durante esses dois anos viveram casamentos infinitamente mais felizes do que outros que duraram 50. E conheço outros que não exigem fogo de artifício ao fim de onze anos (e eu a dar-lhe com os onze anos, desculpem lá, é uma fixação) aprenderam a viver com o chulé de um e as novelas do outro, que sabem perfeitamente com o que contam, que estão ali para lavar e durar.
Isto só para vos dizer que espero sinceramente que o alinhamento de planetas que anda a separar a população junta se disperse e páre de fazer estragos. Nos últimos tempos já aconteceram demasiadas coisas más neste mundo para também perdermos a fé nas relações felizes. Já agora também espero que a guerra acabe, que o calor volte, que o Brexit não aconteça e que o Trump afinal tenha sido uma alucinação colectiva.
Pedir por pedir.
Ponto 1: (esta coisa de começar com pontos lembra-me as reuniões, mas tenham paciência) Adoro festas. Qualquer tipo de festa. Nossa, estrangeira, importada ou exportada, pagã ou cristã, que tenha significado ou que não me diga rigorosamente nada. Não me interessa que venha ou não na lista de festas portuguesas. Não me dói que a gente importe a vampirage dos americanos e os americanos não nos importem o nosso manjerico (eles é que perdem). Para mim, qualquer pretexto é bom para celebrar: o dia do sol, da lua, das bolachas, do Menino Jesus, das Pessoas Que Adoram Festas Só Porque Sim, e dos zombies (que também são gente).
Ponto 2: O dia mais feliz da minha vida foi no ano passado em que passei o Halloween em Inglaterra com uma peruca loura, uma marreta na cabeça, uma cicatriz muito mal enjorcada e umas asas pretas monumentais (cheguei tarde demais à conclusão de que aquilo que eu achava que era uma versão cool da Fada da Morte era percebido, assim, como dizer-vos, como uma espécie de senhora-da-vida-zombie. De qualquer maneira, fez bastante sucesso e fui feliz).
Dito isto, acho que me faria bastante impressão desenhar uma cicatriz numa criança de três anos. Ou mandar outra de 4 para a escola vestida de zombie. Zombie? Nem eu sei bem que raio é um zombie, quanto mais eles…
O Halloween sempre foi uma festa de adultos (dos nossos fantasmas, medos, superstições, tabus) porque é um exorcismo da morte. Olha morte, não temos medo de ti, buu.
Claro que para a maioria dos adultos, é apenas uma noite em que a pessoa se pode mascarar de uma coisa qualquer aterradora, só porque é divertido. Também percebo que um miúdo de 10 ou 12 anos se queira mascarar de morto-vivo, porque é aquela idade parva em que eles gostam de chocar o povo e de explorar o medo, e tudo bem.
O que me faz confusão é o lado esquizóide da coisa.
Quer dizer, no Halloween mascaro-os de zombies e desenho-lhes uma cicatriz a escorrer sangue, mas se no resto do ano me vierem pedir para ver um filme de terror, não deixo porque se podem assustar. Passo a vida com medo que se traumatizem porque viram filmes que não eram para a idade deles, mas depois acho lindo que se vistam de mortos-vivos. Não os deixo ver uma cena de sexo mas deixo-os ir para escola com a cara artisticamente deformada em ferimentos maquilhados. Não os levo ao funeral do bisavô e não lhes falo da morte, mas levo-os a um sítio onde está toda a gente vestida de esqueleto. No Carnaval a minha filha veste-se de Elsa e de cetim azul, no Halloween de monstro sem olhos. Não é uma questão de trauma: é uma questão de coerência.
Quer dizer: se calhar é picuinhice. Mas isso não é impor-lhes os nossos, enfim, fantasmas? Percebo que para os miúdos seja divertido porque basicamente vestirem-se de qualquer coisa que não eles próprios é sempre divertido, e sempre houve fantasmas e bruxas no carnaval. Mais do que isso, sinceramente, parece-me, sim, uma americanice mal importada.
Há coisas que ninguém adivinha, a não ser quem já passou por isto. Digo isto contra a minha religião, porque odeio a frase ‘só quem passou por isto’. As pessoas não são burras e se as outras explicarem, elas percebem. É o que eu tenho para dizer a quem me diz ‘só quem passou por isto’ seja a propósito do que for.
Portanto, vou explicar a quem não passou por isto: há quem viva em modo Skype. Um aqui, outro no fim do mundo. É mais ou menos assim.
- O Jantar – “Tens jantar?”, “Não”. “Estás a apontar para quando?” “Daqui a dez minutos” “Mas eu ainda tenho que pôr as batatas no forno e isso demora uma eternidade!” “Então leva isso para a cozinha e conversas comigo de lá” “Se me cair água em cima do teclado pagas tu” “Olha então não me leves, quero lá saber”.
- O Jantar II – “Espera lá, deixa-me equilibrar aqui isto no sofá. Caraças, caiu-me o copo ao chão. Espera lá que tenho de apanhar isto. Espera lá, não desligues.”
- Os Amigos – “Queres jantar?” “Não, vou jantar em casa”. “Sozinha?” “No Skype”. Ficam a olhar como se eu tivesse dito que jantava em Marte. “Tu jantas no Skype?” Tenho vontade de lhes bater. Sim, ó minha, para tua informação eu tenho uma relação à distância e portanto como não posso jantar ao vivo com a pessoa que amo como tu fazes, percebes, janto ao morto, isto é, no Skype. Mas também é verdade que isto é mais do que muitos casais têm.
- Os Outros Amigos – Não sei se me irrita mais quem acha estranho que eu jante no Skype se os que acham normalíssimo que eu jante no Skype. Elas têm marido e filhos e rotweiller e o telejornal, e nós temos, pronto, o telejornal (“Se tu soubesses o que significa para alguém que está longe ver o telejornal”) Que giro que é. Vocês devem divertir-se muito mais do que os casais normais. Até devem discutir menos (Não. Não discutimos menos. Discutimos no Skype e ainda discutimos mais ao vivo, que é o que me dá esperança para esta relação).
- Os que estão pior – Há quem esteja na mesma situação: só que pior. Conheço um casal em que ele está em Inglaterra e ela está em Myanmar, com cinco horas de diferença. Outro casal em que ela está num canto do mundo, ele está no outro canto do mundo, e o filho bebé está com os avós na China, que é outro mundo. Outro em que ela largou tudo para ir ter com ele, e dois meses depois ele foi destacado de volta para Portugal e ela nunca mais conseguiu arranjar emprego aqui. Outros que façam o que fizerem, não conseguem sincronizar-se. Outros que viveram a vida inteira separados até à reforma. Brrr.
- A Tragédia - Há coisas banais que se tornam de repente o fim do mundo. ‘Olá, estás-me a ouvir?’’. ‘Quê? Fala lá outra vez”, “Estás-me a ouvir ou não?” “Acho que isto acabou de ficar sem som!” “Tou tou?” Desliga. Mais três horas para reiniciar. “Espera que vou ligar do telemóvel”. “Ai agora ouço-te” “Obrigada, tou no telemóvel”, “E agora faço o quê?” “Não sei, não consigo ver o teu écran, mas isso deve ter uma barra de ferramentas” “Não tem barra nenhuma, não sei de que estás a falar” “Mas tem que ter!” “Mas não tem!!!” “E que queres que te faça?” “Liguei ao João mas ele não me atende, deve andar a fazer trekking em Sintra e não tem rede”, “Quem é o João?”, “O técnico dos computadores”. Percebo de repente que estou à mercê das novas tecnologias.
- As Viagens – “Este mês não posso ir aí, o meu chefe mata-me”, “Ok, eu posso entre 12 e 15”, “Deixa ver a Easyjet” “Esquece. Está um balúrdio, não sei o que é que se passa”, “Tenta entre 25 e 30”, “O voo de regresso sai daí às 6 da manhã, a não ser que vá para o aeroporto às 3 não há maneira nenhuma de conseguir apanhá-lo, e não tenho comboio nenhum às 3 da manhã”. “Está tudo maluco”.
- A Incerteza – A maioria das pessoas pode fazer planos. Daqui a um ano temos filhos e daqui a dez compramos uma casa no Algarve, daqui a 50 reformamo-nos juntos. Nós saltamos directamente para reforma. Sei que tudo isto seria bastante pior sem Skype. Aliás nunca será demais agradecer à santa alma que o inventou (que eu por acaso não sei quem foi e agora não me apetece ir ao Google, mas que tem a minha eterna gratidão). Estaria agora a escrever cartas de 20 páginas, sei lá. Ou já teria parado de escrever. Mas uma coisa é certa: se há verdadeira prova de amor, é esta. Os outros já rebentaram há muito.
- A Lamechice - Estão-me aqui a dizer que isto é para lá de lamechas. Se calhar é. Deixem lá, eu compenso-vos na próxima posta. Quando viermos para baixo.
Foto: Sara Otto Coelho/Observador
Chego a Portugal depois de uns dias no Reino Unido, de clima cada vez mais sombrio para estrangeiros. Ahhh, que dia lindo. Mas… onde está toda a gente? Onde anda a Humanidade? Estarão todos outra vez nos Jardins de Belém a tomar chá com o Presidente? Estão todos na ONU a felicitarem o Guterres? Terá caído um cometa que dizimou a população portuguesa? Não: dizem-me que abriu um museu novo e a malta foi a correr visitá-lo.
Ah. Um museu de arquitectura e tecnologia. As duas paixões dos portugueses. Temos tanto trabalho para arquitectos no nosso país que a esmagadora maioria deles nem tem de ir lá para fora nem nada, sai do curso e tau, tem logo emprego.
Assisto estarrecida às fotografias de magotes de pessoas em fila. Em frente ao museu. À torreira. Por cima da ponte. Até que tiveram de fechar a ponte. Para ver um museu que vai ser à borla nos próximos seis meses. E nem que fosse só hoje: a panca das borlas já afectou assim tanto o nosso cérebro? Haveria farturas gourmet? Estavam a dar bonés lá dentro?
Ok, dizem vocês, e qual é o mal de gastar um dia da nossa vida na fila para um museu? Estamos num país livre. Ainda. A pessoa se quiser gastar o seu dia de pé ao sol a esturrar os miolos e as moer as pernas com milhares de outras pessoas, está no seu direito. A beleza da liberdade está nas parvoíces em que podemos desperdiçá-la. A questão não é o ‘mal’. A questão é que eu gostava de perceber. Como não acredito que a panca das borlas e o apelo das farturas chegue tão longe, e parece que também não estavam a dar bonés, perguntei aos meus amigos. Nada. Ninguém me sabia explicar.
Até que chego à minha prima João. “Não percebes nada da mente lusitana, pá”, disse-me logo. Pois não. Por isso é que perguntei. Dah.
Então, explicou ela: “Tuga que se preze quer SEMPRE dizer que ‘esteve lá no primeiro dia’. Sempre! Lembras-te quando abriu a Ponte Vasco da Gama? Houve gente que esteve enfiada nos carros 4, 5 e 6 horas só para poder dizer que tinha passado a ponte naquele dia.”
Fiquei a pensar nesta coisa no primeiro dia. A malta não tira o rabo do sofá para ir ao ginásio, para ir a uma manifestação, para exigir os seus direitos, para ir ver a avó ao lar, mas para ir a um museu que se calhar nem lhe diz muito, vamos todos. Isto no primeiro dia. Se falharmos o primeiro dia, depois já não tem graça.
Concentro-me nisto do “primeiro dia”. O último dia também é bom. É o trauma do 'Toda a gente foi e eu não, que sou um falhado!!!' (se não forem como eu, que sou mais do estilo: 'Vou lá hoje. Ah já acabou? Há três meses? Então mas aquilo não ia até Junho'?)
Mas não há dia como o primeiro. Poder dizer, Eu estive lá no primeiro dia. Para contar a quem? Aos netos? Os netos não vão ligar absolutamente nenhuma. O tempo em que os netos ouviam atentamente o que os avós diziam acabou exactamente no fim do período megalítico (ou arredores) quando o paleio dos avós deixou de ter a ver com bisontes potencialmente ameaçadores e como nos livrarmos deles.
Portanto, é para nós? Para nossa própria satisfação? É um ritual? É como se fosse um dia de festa? É para aproveitar um certo clima de celebração? É para ‘comungar’ da mesma alegria com outros seres humanos? É para sentir que 'pertencemos'? É para pôr no Facebook?
Seja então a alegria do primeiro dia (rima interna. Não façam isto em casa). Eu acho que vou esperar até que muitos dias tenham passado depois desse primeiro, porque sou uma senhora de idade avançada, as minhas pernas já não se aguentam seis horas ao sol, já sinto que pertenço quando vou ao supermercado à sexta feira às 7 da tarde, e tenciono chagar a paciência dos meus sobrinhos-netos com relatos muito mais chatos de coisas infinitamente mais idiotas. Irei quando chover. Olhem, fiquem bem e divirtam-se, com ou sem filas.