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Já se disse muita coisa sobre a Nanny. Já se falou da exposição, do ‘cantinho’, dos direitos, etc. A mim o que me ficou depois daquilo tudo foi ‘bolas, é mesmo difícil ser mãe em Portugal’.
E vocês podem dizer-me: ‘Ai mas os nossos pais tinham uma vida dez vezes mais complicada, e não se ensaiavam nada para usar o chinelo nem tinham medo da sua autoridade’.
Enfim. Primeiro depende dos pais, obviamente. E das crianças. A minha mãe o mais que fazia era levantar-me a sobrancelha, e estava o assunto resolvido, enquanto o meu irmão dava espectáculos de luz e som dignos do Circo Chen. Portanto, ‘dantes’ também não era o reino da chamada ‘boa educação’. Aliás, basta ver a quantidade de adultos incrivelmente mais parvos e malcriados do que as crianças para perceber que a geração dos nossos pais também não se saiu assim tão bem.
Depois, também não estou tão certa do real valor do chinelo nem da autoridade pura e dura.
Depois, tinham vidas mais complicadas mas a comunidade era geralmente mais presente: havia as avós, as tias, as vizinhas, as crianças andavam em bando, era tudo mais ‘partilhado’ (esta palavra hoje tão na moda mas tão pouco praticada).
E depois, se formos honestas, a maioria dos nossos pais e avós não estava interessada em ter aquelas criaturas (que geralmente eram muitas) a atazanar-lhes o juízo e a casa durante mais tempo do que o estritamente necessário, portanto eles que aprendessem depressinha a vestir-se a comer sozinhos e a tratarem da sua vidinha que uma mãe não era uma criada.
Hoje as mulheres têm filhos (enfim, quem tem) mas quem é que as ajuda? Ser mãe é um trabalho, muitas vezes, incrivelmente solitário. As professoras têm mais 35 alunos e ‘programa’ para dar, as avós ou estão longe ou desajudam, os pais idem (estão longe ou desajudam). Claro que há muitos pais presentes e esforçados, mas estou-me a lembrar de alguns mais infantis do que as crianças, outros que bazaram para outra família assim que a criança começou a dar problemas, e muitos outros que, mesmo sendo ‘presentes’, qualquer coisa que façam é visto como um favor em vez de uma tarefa banal.
As mães trabalham até tarde, estão cansadas, estão carentes, estão a braços com culpas variadas (de não estarem lá o tempo todo, de se terem separado do pai, de se terem exaltado, de tudo e mais alguma coisa), precisam elas próprias de colo, e quem é a única pessoa que está ali para lhes dar colo? Os filhos são para manter pequeninos, para se poderem mimar, para poderem adormecer connosco na cama, para lhes podermos atar os sapatos até aos 14 anos, para podermos carregar ao colo pela casa toda, porque as mães também precisam de colo e não o têm. Hoje, há quem tenha filhos para ser amado.
Isto pode ser um choradinho que está longe da verdade. Posso estar a ver tudo negro (deve ser porque o dia deu em chuvoso). Mas o que fiquei a pensar depois do tsunami que tudo isto deu foi que, neste caso, era a mãe que precisava de ajuda, não a filha. Mas quem ajuda as mães neste país onde se alardeia que é preciso aumentar a natalidade mas depois se paga à esmagadora maioria da população o salário mínimo, ou menos? Onde tantos homens foram educados pelas suas próprias mães para serem infantis e sem serventia (como diria a minha avó)? Qual é a mãe que pode educar um filho com calma, cabeça e sensatez quando não se sente ela própria amada, apoiada, valorizada?
Ser mãe nunca foi fácil: mas agora é uma profissão de risco. Era bom que toda esta discussão servisse, ao menos, para tornar a vida das mães (e pais) mais suave. E para que não fosse um drama tão grande ter de dizer ‘não’ a uma criança (e 'sim', na maioria das vezes).
